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sexta-feira, 27 de junho de 2014

O Caso do Arquivo Morto

    Buenas, pessoal! Mês que vem estarei lançando junto do Grêmio Literário Patrulhense o livro Prosa na Varanda 2, que além de crônicas como no ano passado também contara com contos, alguns deles escritos por mim como a história de uma carta entregue por engano que recusa-se a ir embora em "Correspondência"; Uma cidade assombrada pelo canto de "O Acordeonista" e o inusitado desfecho da disputa entre dois partidos de uma cidadezinha do interior que recusam-se a deixar a prefeitura em "Partida Repartida", além de vários outros. Como amostra do que está por vir, selecionei alguns das minhas crônicas do primeiro livro para vocês, começando por "Arquivo Morto". Boa leitura ;)


     Mal se ouvia seu bom dia quando chegava. Na repartição, ninguém se lembrava do seu nome, só para o que servia. O cara do arquivo. Trabalhava ali há uns cinco anos, fazia o que pediam, nunca deu problemas e, como o ar que se respira todo dia, mal se notava sua existência.

    Certo dia chegou a suas mãos uma nova pasta para ser arquivada. Frequentemente abria o que levava para o arquivo antes de enterrá-los – como gostava de dizer para si mesmo. Eram arquivos mortos, mortos por que iam para um lugar de onde jamais sairiam para informar nada. Foi então que leu um arquivo de óbito. Parou um instante. Um óbito. Palavra agourenta. Morte. Fim inevitável, invencível. Óbito. Leu para ver quem era o cidadão. Nome sem significado, solteiro, sem bens – morrera num quartinho alugado da pensão - sem familiares. Alguém que morreu de verdade. De verdade por que ninguém lembraria seu nome, não deixou nada para ninguém. Era como se nunca tivesse existido.

    Triste isso. O coveiro dos arquivos refletiu sobre a pasta e se viu na imagem do velho, estirado no chão de um quarto frio aspirado o pó do tapete sem ter um nome para chamar enquanto via o mundo sumir... Guardou o arquivo sem mais nada que pudesse fazer e voltou para o mundo lá fora. O mundo sem mofo, o mundo fluorescente, o mundo em branco para alguém que não fez nada, não sonhou nada. Sonhos teve, claro, mas desistiu deles assim como os desejou. Olhou para toda palidez daqueles sorrisos plásticos que se refletiam um nos outros e desejou morrer como todos os dias. Mas aí percebeu: Já estava morto. Não era ninguém, não dizia nada, era nada. Amargurado, irado, transbordando uma cólera incomensuravelmente contida entre as juntas dos dedos que se estalavam freneticamente ele voltou para o arquivo, fechou a porta e não voltou.

    O expediente acabou e todos foram embora, menos aquele que ninguém notou. Noutro dia um funcionário teve que guardar um documento e o cara do arquivo não estava lá, onde ele estava? Teve ele mesmo que ir lá e descobrir o homem enforcado na sala de arquivos. Ninguém sabia quem ele era nem como tinha chegado lá. Foi um escândalo. A notícia do suicida misterioso ganhou os jornais que o sepultou entre os mais notáveis acontecimentos efêmeros e o arquivista pela primeira vez existiu no mundo – vividamente morto.

Felipe Essy

quarta-feira, 27 de março de 2013

PanisetCircenses.com




        Ultimamente eu tenho tido pouco tempo para gastar lagarteando na internet, mas sempre que eu entro, brotam milhares de referências a vídeos que bombam numa semana e somem na outra. Embora eu ame Cinema, eu nunca me seduzi por essa coisa de canais ou vlogs. Não tenho paciência, prefiro podcasts de áudio que me permitem fazer outra coisa enquanto escuto. De vez em quando eu tenho a infeliz ideia de dar uma olhada em algum vídeo que compartilham e eis que eu vejo cenas totalmente idiotas. Não aquela coisa idiota que te faz rir, mas simplesmente sem a menor razão para ter sido filmada e muito menos divulgada. No fim das contas minha única reação é ficar perguntando quem tem mais problemas, quem postou o vídeo ou quem compartilhou.


       Se você é uma dessas pessoas que sabe o que é Lek Lek ou qual é a moral do cara da Sopa (eu não sei e não quero saber), você deve estar achando que eu estou exagerando – para não dizer pior, mas caso você não tenha percebido, parece que voltamos à sociedade do espetáculo, onde as pessoas, conformadas com sua condição, gastam seu tempo rindo de outras pessoas em situações constrangedoras e ás vezes humilhantes. Foi se o tempo de reality show, agora o espetáculo realmente é real e o problema também. Estou lendo Jogos Vorazes e estou cada vez mais surpreso com a maturidade da história que fala justamente disso, do absurdo de usar as pessoas como entretenimento.

        Não sou contra ver vídeos, muito menos contra a comédia. Adoro os vídeos do Felipe Neto e do pessoal do Jovem Nerd, mas creio que há um limite entre o humor inteligente e o entretenimento canibal. Sim, pois gente consumindo a desgraça dos outros para mim é isso e os ofendidos que me perdoem.


F. Essy

domingo, 4 de novembro de 2012

Cisco

Alguém
que podia ser tanto,
mas que no entanto
é só isso:
Um cisco
no canto do olho
de alguém.


F. Essy

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

O Urubu

                Não sei onde morava o tipo, aparecia como ia, mas sua presença era facilmente notável: Um andarilho de longos cabelos emaranhados que arrastava o casaco roubado de outro pelas ruas da cidade. Ninguém sabia seu nome, nem se pensava em perguntar, mas logo descobriu-se sua ocupação. Certo dia um homem que passava perto do cemitério ouviu um grito desesperado e lá dentro ele encontrou o pobre diabo soterrado pelos escombros de um túmulo que desbou enquanto ele saqueava o morto. O escândalo correu a cidade e lhe rendera o apelido de Urubu. Ao invés de ser ainda mais impopular, ele acabou despertando o interesse da cidade. Primeiro um papo furado com alguns jovens igualmente bêbados, depois alguns "olás" para os porteiros e de oi em oi o Urubu tornou-se figura conhecida na cidade. As velhinhas curiosas perguntavam-lhe o que ele tinha achado com a comadre que morreu semana passada, se o Ricardão tinha sido enterrado com a aliança ou se ele não podia pegar aquela corrente de prata da vovó. Numa madrugada sem futuro, o Urubu - bêbado - dormiu numa gaveta vazia e terminou não acordando, deixando a mesma pergunta em todas bocas da cidade: O que levou para a cova o ladrão de túmulos?


F. Essy

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Projeção


            A claridade lhe cutucava as pálpebras para ver se acordava, mas deu as costas para a hora e prolongou o retiro embaixo das cobertas. A canção agourenta do despertador bradou mais uma vez e Pedro se convenceu que já era hora de calçar os sapatados e lavar o rosto.

            Erguendo a cara que pingava sobre a pia, viu um estranho no espelho. Viu a vaga lembrança de um velho reflexo, mas não como lembrava. Encarou fixamente o espelho esperando que o intruso fosse embora, mas ele continuou ali, imóvel. Não obstante, o estranho se aproximou e fitou-lhe os olhos tão de perto que quase se tocavam. Pedro, firme, encarou o ponto negro de seus olhos. Viu a escuridão crescer, tornar-se imensa até cobri-lo e num devaneio tropeçou da beirada castanha para dentro do abismo negro, sumindo-se. 

            O ar muito denso fazia com que Pedro caísse muito lentamente e em todo aquele tempo incontável e assim podia observar a escuridão do vazio em que mergulhava. Depois de muito tempo avistou o reflexo da água ao fundo. Pouco antes de cair ouviu gritos, sussurros perdidos entre cânticos pagãos que silenciaram ao choque contra o mar. Um mar negro e agitado, mas que logo acalmou-se e tornou-se um mero lago sereno. De repente Pedro sentiu areia sobre os pés caminhou até a margem. À vista aquela terra parecia fofa e branquinha, mas conforme a pisava sentia sua aspereza e a tornava escura.

            A terra vinha, a terra passava, mas Pedro não chegava a terra nenhuma. Não havia nada além do nada, só a sombra do vazio. Percebeu então que não havia mais nem terra, nada o separava da escuridão e ela o tocou e o escureceu e o fragmentou até que seu ensurdecedor grito de desespero tornou-se surdo, mudo e morto no reflexo despedaçado do espelho.


F. Essy

sábado, 4 de agosto de 2012

Mais um Inverno!

      Sim, mais um inverno para aquecer o coração! Permitam-me explicar melhor: No último dia 25 o blog completou dois anos de existência alcançando 4000 acessos e isso me deixou realmente feliz. Eu sei que tem blog com muito mais acessos do que isso, mas para quem gosta de escrever, poucas coisas são melhores do que saber que algumas pessoas lêem o que você escreve - e presumo que gostem. Além do mais conseguir alimentar um blog durante dois anos não é fácil e um baita motivo para comemorar.

      Então eu gostaria de expressar o quanto eu gosto da sua presença aqui, leitor. Apareça sem bater e comente sempre que quiser. Nos vemos na próxima postagem!


F.Essy

domingo, 15 de julho de 2012

Um Sorriso no Olhar

                 Algumas pessoas são para nós como uma grande casa antiga. A casa esteve durante décadas no mesmo lugar e passamos diversas vezes por ela sem notá-la. Curiosamente um dia paramos em frente sem saber bem porque e reparamos no seu corpo entre as outras casas. Nosso olhar se deita sobre ela e passa a perceber as linhas de relevo, os pequenos detalhes na beira do telhado, as janelas emolduradas e tantas outras coisas que ficam a nos acariciar a percepção. Conscientes de nossa própria fascinação, temos um súbito desejo de nos aproximar, ver mais de perto, tocar as paredes e sentir sua textura. Então nos impulsionamos em direção a casa nos questionando sobre o real sentindo de fazer aquilo, mas antes de chegarmos a qualquer conclusão nossa mão já saudou a porta. As batidas ecoam pelo espaço oculto atrás da madeira desbotada e se perdem lá dentro. 

                Por um impulso tão inexplicável quanto o que nos levou até ali, agarramos o trinco e... crap - A porta está aberta. Por um momento ficamos ali parados sem saber o que fazer. Nos questionamos se devemos ou não entrar, mas logo concluímos que qualquer coisa que não seja viver a oportunidade seria a pior escolha, então adentramos a penumbra aos tropeços enxergando apenas o reflexo pálido de alguns metais e a cor enegrecida de alguns móveis. De repente notamos uma vela acesa sobre a cômoda que tínhamos certeza de que não estava ali antes. Com hesitação aceitamos o presente misterioso, mas percebemos que de nada adianta termos uma vela se não soubermos direcionar a claridade próxima daquilo que queremos enxergar. Nem sempre sabemos onde estão as coisas que procuramos, mas a única chance do fracasso é não saber o que procurar, então ou corremos atrás do que queremos ou deixamos a vela sobre a cômoda e vamos embora.

                Muitos não entendem o que nos levou a ficar toda aquela noite abrindo baús, nos apegamos a coisas que até aquele momento vivíamos sem e por que gostamos tanto daquela casa velha mesmo quando saímos de lá cobertos de poeira, mas com um sorriso no olhar nós sabemos a resposta desde a primeira vez que saímos daquela casa antiga e espiamos sobre o ombro pensando em voltar.


F. Essy

terça-feira, 26 de junho de 2012

Novamente

Enfim, meus caros! “Enfim oque?” Já explico, apressadinhos...  Fazia tempo que eu estava envolvido em duas coisas: Atualizar o corpo do blog e criar o Prosa Na Varanda. “Prosa na Varanda?” Acho que estou criando mais dúvidas ao invés de explicar, então vamos logo aos dois pontos da história:


   O Prosa Na Varanda é o novo projeto do Grêmio Literário Patrulhense, um grupo de leitores e escritores daqui que vão utilizar esse novo espaço para disponibilizar poesias, contos, crônicas, além de outras diversas publicações. Clique aqui para acessar o blog, ou utilize o link na lista ali na direita da página. Agora, sobre o novo formato do meu blog:

  Eu andava insatisfeito com a estrutura e o visual do blog, então tentei tentei melhorar algumas coisas. As seções criadas para organizar as postagens não cobriam todos assuntos que normalmente eram escritos, então decidi “demolir” tudo e fazer novas seções para poder dividir as postagens de maneira mais eficaz.

Como o próprio nome sugere, a seção Editorial consiste em textos breves sobre a produção das postagens e outras coisas ligadas à manutenção do blog. Não, eu não esqueci de por um acento em Arteria, é apenas um trocadilho sobre a arte pulsando... enfim, ali estão agrupados textos sobre arte em geral desde quadrinhos até música. Em Daqui Pra Lá, vocês poderão encontrar publicações que envolvem a sociedade desde o nosso querido Baú da Borges até a bagunça da política nacional. Por fim a seção Contos e Uns Quebrados agrupa  todos textos literários produzidos ou citados no blog.


Espero que vocês gostem da roupa nova do blog, agora é só botar as chaves no bolso e os pés porta afora. Em breve novas publicações!

sábado, 5 de maio de 2012

Minha Vida Crônica VII


Era mais um dia de trabalho e menos um da minha vida. Saí de casa com aquela sensação estranha de quando se acorda cedo. Cheguei na frente da loja e iniciei a cadeia de eventos: desliguei o alarme, forcei a grade enferrujada e desfiz as duas voltas de chave que eu tinha feito ontem na porta. Parecia que eu entrava numa prisão e meus devaneios acorrentados me observavam dos cantos e sombras. Por fim liguei as luzes raquíticas e sentei atrás do balcão para me convencer que eu não estava mais na minha cama. Definitivamente eu não estava.
A decadência daquela loja só me fazia ter mais certeza da minha. Eu não sabia fazer nada nem pretendia qualquer coisa que me levasse para algum lugar, por isso eu estava ali no fundo da piscina olhando para cima. Não é surpreendente que eu estava trabalhando ali, o cara mais ou menos da loja mais ou menos.  Isso até que dava um bom slogan, mas acho que não ganharíamos muito com isso. Levantei e peguei a vassoura para arejar a cabeça, por que mente cheia é sinal de mão desocupada. Varri um pouco, mas logo os pensamentos emergiram do chão como o pó que eu levava até a calçada e resolvi parar para contemplar a falta de movimento na rua. Apoiado sobre a vassoura, vi que uma mulher fazia o mesmo ali perto.  Estava de avental na frente do restaurante ao lado, trabalhava lá decerto.  Não pensei em desviar o olhar por que minha discrição ainda não estava funcionando, mas o senso de percepção dela também não parecia estar a todo vapor.  A moça deu as costas para a rua e entrou no restaurante.
Não era nada demais, mas fiquei pensando quem era. Ainda me surpreendo quando vejo alguém em São Bernardo que eu ainda não conheça, mas quanto mais o tempo passa, mais gente nova aparece.  Resolvi então dar uma olhada ao redor: já tinha fila para o barbeiro careca, o cara do sorvete esperava sentado pelos clientes e eu ali matando meu serviço. Eu trabalhava ali há dois anos e nunca tinha puxado conversa com ninguém, não sabia nem o nome deles. Foi então que vi o velho do carrinho. Ele sempre passava por ali, catando latinhas e papel com aqueles carrinhos de supermercado. De fato era muito simpático, sempre vinha me perguntar no fim da tarde se tinha algo para ele e eu arranhava alguma coisa. Bem, pelo menos eu conversava com alguém dali pelo menos.
Então me dei conta de que eu não sabia o nome do velho. Não se pode dizer que é amigo de alguém que não se sabe nem o nome. Eis a missão: saber quem era o velhinho afinal, mas eu ia perguntar assim? Não, não sei... Bem, eu não ia morrer por isso, então não custava perguntar. No fim da tarde, ele veio. Parou o carrinho do lado da porta da loja e entrou:

"Opa!" Saudou ele de seu modo tradicional.
"Iêp!" Respondi e só para esclarecer: ao vivo isso não é tão bizarro.
"Tem alguma coisa pra mim hoje?" Perguntou ele na sua voz de cigarro.
"Tem, tem... umas sobras de papel de presente. Qual é teu nome mesmo?” Disse eu disfarçando quando a pergunta arranhou minha garganta.
"Nico, é Nico" Disse entusiasmado por saber a resposta.
"Tá aqui, seu Nico." Sorri como quem comemora atrás dos dentes.
"Brigado, moço." Ele se virou e foi até a porta, mas de repente parou. Se voltou para mim e perguntou:
"Qual é teu nome, moço?"
"É Rafael..."
"Ah ta, brigado Rafael."
"Tchau!" Falei, pensando nas perguntas que se multiplicam até tornarem-se resposta.




F. Essy

terça-feira, 20 de março de 2012

Temporal


"Oque eu busco com o Oud basicamente é a expressão de sentimentos e os sentimentos são atemporais. Quantos anos na realidade eu tenho? Quantos anos será que minha alma tem? Eu sei que dentro de mim eu sinto coisas que são muito mais antigas do que a minha idade e isso eu consigo expressar por meio de coisas como esse Oud, uma Sitar ou coisas do gênero."

Sérgio Batista falando sobre o
instrumento árabe Oud (ou Alaúde) e outras coisas.



F. Essy

Veja também: Ala, Ali, Acolá...

quinta-feira, 8 de março de 2012

Não Hoje


Dizem que hoje é Dia da Mulher. Um número no calendário não tem nada de especial. Hoje não é dia de nada, muito menos de alguém, por que mulher nenhuma é mulher por um dia, é sim mulher o ano inteiro, a vida toda. É uma soma de experiências e escolhas que fazem um ser humano.

Não me encanta a mulher do dia, mas sim uma em especial. Uma mulher que sabe quando ser menina, uma mulher que desce do salto. Uma mulher que me espera arrumada e me desarruma num beijo longo sem pedir nada, só mais um. Uma mulher que me dá a mão para atravessar a rua, não para tê-la e guardá-la. Uma mulher que acima de tudo me fez homem.


F. Essy

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Minha Vida Crônica VI

Fiquei de olhos ainda fechados sobre a cama curtindo o sono que ia embora. Encarei o teto e me levantei esfregando o rosto como se houvesse água, mas tudo que eu tinha era o suor daquele dia quente - e como era quente. Tentei me orientar no tempo. Era segunda e era Carnaval. Um dia sem muita perspectiva. Podia chamar alguém para alguma coisa, talvez me convidar para outra ou seguir a caravana fingindo que gostava como todo mundo que também não tinha o que fazer. Olhei para a TV e logo desolhei. Eram dez horas, talvez tomasse café, mas naquele calor? Não tinha vontade nem de respirar...
Abri a janela e vi o sol fritando a cidade para o almoço. O que teria para mim lá fora? Só me restava esperar mais um dia correndo atrás de tudo o que eu não tinha.

F. Essy

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Minha Vida Crônica V

Era uma manhã de quinta-feira. Sentado num banco de madeira velho na rodoviária, eu esperava o ônibus para Vento Forte que só chegaria daqui a quarenta minutos, então pouco me restava além de ficar ali sentado tentando não imaginar quantos já não haviam feito o mesmo lustrando aquele banco. A viagem era para visitar minha tia Lúcia que fez minha infância parecer melhor do que realmente foi como só as avós sabem fazer e mesmo tão rígida quanto meus pais até suas censuras eram cobertas de açúcar. Todo ano eu ia para lá. Dessa vez, meu primo estava fora e por isso minha tia me convidou para lhe fazer companhia no fim de semana.

Na rodoviária, moscas rodopiavam de mãos dadas numa frenética dança me fazendo de salão. Esbofeteei o ar como quem desliga a música e manda os convidados embora, mas logo voltaram e começaram outra vez. Os cinquentões do bairro se reuniam entre as paredes azulejadas do boteco ao lado e os banheiros de porta quebrada davam todo o charme que uma rodoviária precisa. Muitos bocejos e devaneios depois, o ônibus chegou. Levantei e fui ligeiro ao balcão sem parecer desesperado. Detrás do vidro, os óculos da moça me disseram:

- Pra onde?
- Vento Forte.

Desviei o olhar e cavouquei meus bolsos atrás do dinheiro. Achado o tesouro, desdobrei e pousei as notas sobre o mármore frio, esperando a impressora raquítica terminar o serviço. Olhei os rostos que eu não lembraria e pensei como havia tanta gente para não conhecer vivendo tanto tempo na mesma cidade... O crep-crep parou com um rasgo e a passagem deslizou sob o vidro.

- Próximo.

Saindo no mesmo passo que cheguei, me senti como quem sai de um quarto de bordel e vê outro fechando a porta. Parei diante do motorista que bloqueava a porta e lhe entreguei a passagem. Pelas lentes escuras fez uma breve analise e me devolveu a passagem. Pensando em qual lado teria mais Sol, procurei o lugar ideal. Deixei o corpo cair sobre a poltrona e senti cada dia em que ela não foi limpa. Dei uma olhada para o mundo lá fora e suspirei vendo que não havia nada para ver.

O ônibus estremeceu e o mundo acelerou para trás. Cada um ali dentro se virou para sua janela, vendo suas próprias projeções contra o vidro. O ônibus parou e alguns rostos novos entraram enquanto o mundo voltava a ir para trás...

- E aí! De repente disse alguém do meu lado.
- Hã... E aí. Respondi sem mesmo saber com quem eu falava.
- Tá indo para Vento Forte? Disse num sorriso, sentando ao meu lado.
- Sim, sim... Repeti pensando no que dizer. - Vou ver minha tia.
- Legal! Eu só vou pro trabalho, como sempre. Concluiu ele, como se eu já soubesse disso.

Sorri de leve para disfarçar e me virei para a janela. Quem era aquele cara? Eu conhecia? Parecia que sim. Eu não me lembrava de vê-lo em nenhum lugar. Em Vento Forte eu quase não saía da casa da minha tia, a não ser algumas poucas voltas com meu primo. Pensei em ver se suas roupas davam alguma dica do seu trabalho. Discretamente olhei para o estranho e vi que não havia nada que me ajudasse muito. Jeans e camiseta são universais. Me voltei para a janela de novo.

- Parece que você vai ficar mais tempo por lá dessa vez. Disse ele olhando para minha mochila cheia até o fecho.
- É, respondi surpreso. - Vou ficar uns dias. Meu primo tá fora e minha tia me pediu para eu ficar com ela.
- Hm... Ele disse recostando na poltrona como se aquela história já passasse do interesse da pergunta.

Certamente me conhecia. Como sabia quanto tempo eu costumava ficar em Vento Forte? Talvez fosse um amigo de um conhecido meu que eu costumava encontrar e nunca tivesse falado diretamente. É possível, mas se me conhecesse de perto demonstraria algum interesse pelo meu primo que sempre estava comigo, perguntaria aonde ele tinha ido, como estava... Isso estava estranho. De repente, como um exército de gigantes, torres de navalhas giratórias se revelaram entre as árvores na distância e avançaram ao nosso lado. O parque eólico se estendia até onde a vista alcançava como um jardim de cata-ventos perfeitamente alinhados, divertindo nossa imaginação como só um parque sabe fazer.

Um tempo depois, a ponte sobre a RS 30 anunciava que eu tinha enfim chegado a Vento Forte. Muitas curvas depois a rodoviária avançou e como se abocanhasse o ônibus ela o parou entre os dentes de seu enorme telhado.

- Bem, disse o estranho. – Tá na hora de levantar e ir pro serviço!
- É. Disse eu sem ter como retribuir um “eu também”.

Avançamos pelo corredor sem passageiros e descemos se despedindo com um aperto de mãos, indo cada um pro seu lado. A tensão tinha me deixado “apertado” e resolvi encarar o banheiro da rodoviária já que a casa da tia Lúcia era meio longe. Suja, meio acabada e com todos boxs ocupados para variar, fui obrigado a fazer o "serviço" ao lado de um velho duvidoso naqueles horríveis mictórios, tentando me virar o máximo possível para o lado oposto. Feito o trabalho e guardado o instrumento, fui para o balcão das passagens me informar dos horários para voltar na segunda-feira e eis que o estranho do ônibus sorriu para mim atrás do vidro.


F. Essy

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

10 Coisas Sobre o Fim do Ano

Buenas, pessoal. Para encerrar as postagens esse ano, elaborei uma lista de dez comentários sobre essa época . Enfim, aproveitem:

1 - Para começar, o fim do ano é apenas o término de um periodo de tempo baseado no número de voltas que o planeta faz. Sendo assim, não entre em pânico.

2 - O fim de ano não é deprimente, mas sim aquilo que você faz sempre nessa época.

3 - Nada de promessas, ano novo é como segunda-feira: nada te impede de começar no domingo e a terça-feira não é menos digna.

4 - O Natal serve para duas coisas: quando criança, os presentes. Quando adulto, reunir as pessoas que te fazem abrir aquele sorriso.

5 - Panetone? Um pão amargo com a tal das frutas cristalizadas que não tem gosto nenhum, sem falar no papelzinho envolta para "descascar". Gaste seus R$20,00 com 1 quilo de chocolate e faça todo mundo mais feliz.

6 - Ver queima de fogos na beira da praia vestido de branco é apenas uma propaganda. Reveillon de verdade é com os amigos e afins, seja onde ou como for.

7 - Champagne? Compre cerveja. Todo mundo acaba comprando um champagne vagabundo de supermercado e ficando com aquele gosto amargo na boca de fruta artificial. Cerveja tem menos da metade do preço e o dobro da satisfação, a não ser que você queira fazer tiro ao alvo com a rolha do champagne nos seus amigos e sair molhando todo mundo com aquela espuma maldita.

8 - Viagem para a praia na Virada pode ser um programa de índio: Depois de enfrentar engarrafamento numa viagem infernal, você chega na praia e vê que um milhão de pessoas tiveram a mesma ideia que você. Pense melhor.

9 - Se você ainda não sabe o que fazer no Reveillon, acalme-se. Você provavelmente vai fazer algo melhor do que ficar em casa usando o PC como nos outros 364 dias do ano.

10 - O melhor de todos: Nada te aimpede de ignorar tudo que eu disse aqui e fazer oque você quiser. Então feliz ano novo e até ano que vem! ;D

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Presente.

Quando criança, fui vizinho da minha avó durante muitos anos. Muitas tardes eu passei naquela casa que cheirava ao passado, com móveis pitorescos e objetos muito mais velhos do que eu. Também ouvi histórias de outras décadas e palavras de uma língua de imigrantes. O passado esteve presente no meu cotidiano como um parente que mora pertinho de casa e isso me fez amá-lo como um. Minha avó já se foi, mas o passado continua lá naquela casa e vez que outra eu vou lá para conversar e lembrar dos que amei e imaginar o que eu não vi. É algo interessante conversar com o passado.

Ironicamente não quero ser saudosista nesse texto, mas ninguém mais conhece o passado. Crianças crescem sem um armário velho cheio de objetos e fotos velhas para tentar desvendar seus mistérios. Casas antigas são demolidas como indigentes e ninguém mais liga de onde veio sua gente. Essa é a verdadeira razão da falta de romantismo e indiferença das pessoas atualmente, a falta de contato com o passado. Os velhos tempos não eram bons e como disse um homem sabido: Se você sente falta do passado, é por que você não o viveu. O novo é sempre melhor e definitivamente não tenho saudade de quando a informação era comprada e os sonhos subjulgados, mas quero o passado mais presente, pois se não lembrarmos do passado, corremos o risco de cometer os mesmo erros. E cometemos. Feliz Natal.


F. Essy

sábado, 10 de dezembro de 2011

O Tempo Pelo Vento

Tudo se resume a um intante. A um instante agora, que já não é mais. Um instante no qual estamos presos e condenados a fazer nossas vidas. Não há o depois e o passado é abstrato. Avançamos com o ponteiro e já não portamos o tempo que era nosso. Penteando teus cabelos, o tempo flui pelo vento e te leva deixando a porta aberta e a água correndo. O que resta é calçar os sapatos e andar aos tropeços.


F. Essy.

Instante capturado por João Albé na Feira do Livro.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Minha Vida Crônica IV

Roupa legal. Dentes escovados. Chave, celular e trocados no bolso. Tudo certo. Saí de casa e o vento me abraçou, me envolvendo e dando lugar para outros braços de vento conforme eu caminhava. Tirei o celular do bolso com um pouco de dificuldade e procurei o Carlos na agenda. Ligando...
...
...
...

- Fala, meu.
- E aí, ta onde?
- To em casa.
- Cara, eu to indo ali pro centro, ta afim?
- Hm, pode ser, pode ser. Eu só vo ver uns negócio e já to baixando lá.
- Feito então.
- Abraço.
- Falou...
.

Antes que eu desligasse, vi a Rita saindo de casa. Ela mora um pouco depois da minha casa, então não era difícil isso acontecer. Ela não me viu ou desviou o olhar antes que eu percebesse, mas suas costas ofereciam uma boa distração. Ela não tem mais corpo que a maioria que eu vejo por aí, mas me atrai de um modo diferente. Acho que as mulheres se esquecem como a personalidade pode enfeitá-las, mas já não sei se conheço quem ela é hoje em dia. Os amigos que conhecemos quando crianças às vezes se perdem dentro dos corpos em que crescem. De qualquer modo acho que não vou conseguir nada dela além uma boa visão saindo de casa, então aproveitei a ocasião. Dobrando a esquina, ela me olhou parecendo ouvir meus pensamentos. Deu instantaneamente um sorriso sincero e um aceno. Sendo respondida, voltou-se para o próprio caminho e continuamos cada um nossa viagem.

O vento me lavou o rosto com água fria, então puxei o celular e me afundei nos fones de ouvido. Liguei o player e esperei ver que musica ia dar. Last Friday, Gosto dessa. Deixei o celular cair no bolso e aproveitei o resto de caminho. Não entendia muito do que dizia a música, mas às vezes ficam melhor quando você não entende já que pouca gente tem realmente o que dizer. Me aproximando da dobra da calçada, parei na esquina e vi que o Carlos ainda não tinha chegado. Não esperava que já estivesse mesmo. Fui até um banco vazio e me recostei olhando para uma vitrine sem graça. Por que os bancos são virados para as vitrines? Que coisa idiota. Idiota também é pensar sobre isso, mas o que eu tenho de melhor para fazer?

That thing you have. Gosto dessa. Espalhei um sorriso silencioso que ninguém notou. Queria ver um show deles uma hora dessas... Olhei para um lado, gente escorada nas entradas da farmácia e uns pirralhos sentados num banco. Olhei para o outro, nada. São Bernardo é tão movimentado quanto uma churrascaria em sexta-feira santa, mas acho que não me adaptaria muito bem a outro lugar. No fim, as pessoas estão em todas elas e por isso nenhuma será tão boa assim, mas shoppings seriam legais. Cara de Vilão.

O Carlos finalmente apareceu vindo pela calçada. Dei um sorriso e disfarcei olhando para a vitrine esperando ele chegar.

- E aí! – Me diz o cara de camiseta de banda.
- E aí, como é que ta?
- Na mesma. E tu?
- Hm, nada de novo. Será que os guris vem aí?
- Não sei, mas acho que eles aparecem mais tarde.
- Hm...

Olhamos para os lados e vemos que não tem nada para ver.
- Um chimarrão cairia bem agora. – Digo sem qualquer real intenção.
- Bah, um chimarrão seria o ouro!

Rimos brevemente, lembrando que tomar um era um futuro improvável. Uma guria de óculos escuros passa entre a gente e a vitrine. Os olhos a fitam, as cabeças se movem e voltam para o ponto de partida. Comentários são desnecessários. A voz do Carlos dissipa o doce perfume:

- E a festa que teve sábado?
- Hã? A da Casa Blanca?
- É, parece que subiu um povo para lá. Eu acabei tomando um trago com o Alex e não fui.
- Eu também não. Pensei em ir até, mas não tava a fim de gastar trinta pila num ingresso.

Duas gurias passam de short conversando aos sorrisos sobre algo que não demos nenhuma atenção. Ah, os shorts... Breve pausa para admiração. Retorno à realidade.

- Essa calçada é uma passarela... – Disse o Carlos rindo bastante.
- Ah, pode crer... – Concordei, grato pela saúde das habitatantes.
- Olha aquela lá... – Ele apontou com os olhos. - Prefiro uma daquelas.

Ergo o olhar para o outro lado da rua e vejo os cabelos negros da Rita.
Constatei, infeliz, que eu também.


F. Essy

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

A Lágrima do Palhaço

Para quê?
Tanto sorriso se não vai sobrar
Nem um pedaço pra poder contar
Que esse palhaço pode, enfim,
Guardar algum sorriso pra depois
E não houver mais nenhum bis
A maquiagem acabar
Poder tirar o seu nariz

Alegoria em seu chapéu
Esconde o seu lado cruel
Difícil de equilibrar
Andando em corda bamba

Lona, dezenas de cambalhotas
E as piadas idiotas
Que todo mundo sempre ri
Foge com esse seu sapato grande
Antes que alguém se manque
E deixe de te assistir

Olha só
O saltimbanco só é de dar dó
O trapezista não quer lhe ajudar
E só o levou a jaula dos leões
E emprestou o seu batom
Pro artista se pintar
Fazer renascer o dom
De ridicularizar

Lá vem o mago com seu chapéu
Fez um estrago ao palhaço
Fez desaparecer de imediato
Toda sua alegria

Olha o coelho na cartola
O velho som da radiola
E o palhaço a chorar
Molha sua roupa colorida
Tanta lágrima caída
Sem ninguém pra lhe animar.

Babi Jaques e os Sicilianos


Ótima canção da banda pernambucana Babi Jaques e os Sicilianos ilustrada pela foto de João Albé Gongalves, capturando um detalhe da peça "Rádio Chulé", apresentada na Feira do Livro. Deixo aqui meu agradecimento a banda que sempre que pode, se apresenta na cidade e ao Albé que gentilmente me enviou essa foto. Um abraço pessoal!


F. Essy

U-Rosa

Olhem,
uma rosa!
Empunho não a rosa
dos namorados ou funerais,
mas sim a rosa da sensibilidade.
Do deixar-se tocar e ver mais.
Ofereço-a sem face
no único desejo
de que ela lhes permita,
que lhes cative,
que lhes desate.

Mas lembrai,
lembrai da rosa,
da rosa de Hiroshima.
Da rosa sem cor, sem perfume,
sem rosa, sem nada.
Lembrai,
Lembrai da rosa.

Pólvora, traição e conspiração!


F. Essy

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Luz e Sombra

Estas rugas que sulcam meu semblante,
pelo assédio do tempo desenhadas,
retratam o passar de cada instante,
são marcas de lágrimas não choradas.

Ao longo desta rude caminhada,
tantas vezes os silêncios dizem tudo,
imprimindo na face mascarada
o falso sorriso... o suspiro mudo.

Inconstante, o destino traz surpresas:
ora felicidade... ora tristezas...
num misto de sofrimento e prazer.

Momentos maus são como pesadelo.
Os felizes, guardados com desvelo,
dão alento, amenizam o viver.


Ivone Selistre